segunda-feira, 12 de março de 2012

Telescópica.


Lá onde eu morava tinha um céu que eu sempre ia visitar. Ficava no chão, lugar onde todo céu deveria ficar. Era maleável como um lago, mas eu sabia que era mais: era céu! Fazia dia, fazia noite, até tarde fazia. Não importava, refletia todo o tempo. Um céu de ponta cabeça que desmensurava tudo o que havia acima de si. Curioso era como sempre chovia nesse céu inverso. Eram gotas de peixe, o tempo todo. Em dia de tempestade era também dia de festa. Os peixes voavam pra lá e pra cá e não pousavam em margem alguma. Já não dava nem pra saber se eram gotas de peixe ou de nuvem.
Eu gostava de ficar observando aquele céu de cima. Era como se eu voasse sobre ele suspensa em seus ombros de lama e grama.  Mas eu acabava por virar paisagem – isso era quando as formigas me escolhiam como casa ou caminho (e eu gostava disso mais do que voar sem asas).

Aquele céu era um espelho envolto em ondas telescópicas.


imagem: Martha de Barros

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Amie.



Do fundo do meu mais íntimo desejo, aceitei a proposta mais simples e sincera que já me fizeram. É certo que eu já vinha me preparando para isso há alguns textos e ensaios, mas enfim, chegou a nossa vez.

Chegou a nossa vez de consumir o tempo em que carregávamos o céu em nossas costas, entre cartas e descartes. Completamente embaralhados entre as estrelas.

Em meio a tantos sentimentos alheios que nos desperta a necessidade, destrepando-nos, fomos capazes de nos amar pelo avesso.

Fazer amor com alguém como ele foi como ver com clareza pela primeira vez, já que o amor não existia. O que nos unia era a falta. E falta tudo para quem precisa de amor.

Se é nosso dever agarrar todo amor que há nessa existência cruel, então não fizemos mais que nossa obrigação. E Chopin há de agradecer pelo nosso coro que, por direito, somamos às suas sinfonias.

Choramos por todos os poros: lágrimas em forma de suor. E viajamos o mundo no diâmetro da cama. Fomos o mais perto possível de onde queríamos estar. Criamos o genérico do amor (mais barato, mesmo efeito). Nada a se preocupar.

A consciência deve ser a arma mais forte contra a solidão. Por isso não havia deus, não havia pecado, não havia arrependimentos suficientes que pudessem nos impedir. A consciência sim, era a ditadora dos nossos corpos ávidos que não pensavam no depois. Talvez por não haver depois algum.

Todas as lágrimas dos nossos corpos foram pelo ralo e espumaram no chão. Bolhas ácidas que nem sequer me fizeram cócegas nos pés, tão imune eu me encontrava àquela dor em ser tão rapidamente finita. Acabaria de qualquer forma, como acabaremos um dia. Sozinhos ou não.

E depois de tudo isso o que resta dele em mim são só as partes óbvias que me doem pelo tempo que esperamos para nos consumir pela boca, pernas e vãos.

Mas me assusta muito saber que depois de ter aprendido com os erros, passei a apreciar as deformidades do amor. E talvez eu me apaixone justamente por elas.


Amie: http://www.youtube.com/watch?v=f8Js4V-7mOM

Imagem: Egon Schiele



domingo, 25 de setembro de 2011

De olhos fechados elas caem.


Se você pudesse me ver nesses últimos meses, veria claramente que existe algum problema. É difícil assumir, mas agora é tarde, fugiu de mim. O problema é a semelhança que eu não encontro em mais ninguém. Não vejo seus olhos em outros rostos, seu sorriso em outros dentes, nem sua voz em outros sons. Meu problema é buscar suas características em todos os homens que levo pra cama, pro berço que é meu coração de mãe viúva. Nossa gestação longa deixou sobrar muito amor triste que carrego sozinha. Seu fantasma branco não permite que ninguém seja como você e signifique tanto para mim. E rouba desde meus primeiros passos de manhã até meu corpo entregue aos lençóis amassados no fim da noite, entre gemidos frios. Mas se me vens em sonhos lindos, na realidade não existe mais: metamorfoseou. E cada vez que surges, eu fecho os olhos, de medo. Mas é só fechar os olhos pra eu chorar. Meu estado ainda é grave: preciso de distração permanente para não viver em função das lembranças... Justo eu que odeio viver de passado, que quero viver cada dia como se fosse o último, que quero ser livre e feliz. Justo eu que não quero depender de ninguém, fui abençoada sem querer. É muita pretensão querer saber se haverá um fim, mas pra quem já agüentou até aqui... um mês a mais há de vir!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Menina, ele te ama!

Colagem e desenho com lápis de cor feitos por mim.

Menina, ele te ama! Seque as lágrimas do teu rosto, veja as coisas que ele faz. É verdade, um sempre ama mais. Mas não se sinta assim tão frágil, a qualidade é uma virtude que não mede quantidade. Quando ele te escolheu, já lhe dizia o coração, você é a mais bonita. E de ouvir seu velho amigo, seguiu o seu caminho e chegou até você. Sorria pelas noites, sorria pelos dentes, roubava-lhe a atenção e acabava entrando sempre pela porta da frente. Você, de tão fechada e calejada, se viu apaixonada pela inocência do rapaz. Ah, menina, o amor dele é forte! Derreteu seu passado à ferro, te enlouqueceu e te pôs no seu lugar. E estando no seu lugar, viu-se vítima pela primeira vez. Ele sabe te amar, como nunca ninguém fez! E agora onde está a mulher forte e segura, você se pergunta. Ficou perdida em qualquer lugar, onde não há nada para se perder. Seu coração começou a bater e você mal sabe qual é o segredo pra ele não parar. Chora de saudade, chora de certeza, chora por tudo que te faz amar. Esse mal-acostumado coração que aprendeu depois de velho qual é a sua função, só te faz chorar! Mas fique calma, menina, não há nada para se preocupar. Seu amor agora responde, no ecoar do rapaz que não sabe o faz pra te fazer parar de chorar. Menina, ele te ama! Não sei por que reclamas desse amor a disparar...

sábado, 30 de abril de 2011

O dom de perder e aprender.


Fui para aprender, para crescer e sugar, sugar, sugar... E me sugaram inteira.

Observei os traços, os passos e os pedaços. Cada vício de expressão eu decorei. Limpei cada ladrilho, montei cada bancada, lavei todos os bicos e deixei o pó pra lá... Tornei-me o pó que vigiava, curioso, enquanto queriam me limpar. Sei das agulhas, das músicas e dos horários sem terror. Do pescoço que inclina levemente, dos anseios de amor, dos traumas de infância, das famílias imperfeitas, da barriga que cresce com vida e dor. Sei de como dividiam vidas comigo, enquanto recusavam-se a aceitar esse fato. E sei dos olhares que nada dizem – ah! quem me dera não saber desses - enquanto tudo que eu buscava tornava-se palavras mudas. Não olhava para mim, que limpava seu chão e decorava sua agenda com cifrões. “Money over bitches” e eu no vermelho. Família no telefone, amigos na internet e eu sozinha no paraíso, limpando o ralo que só servia para entupir e sugando o pó que deixavam para trás, para mim. Porque o resto também vale a dor de não ser nada antes de ir para o lixo.

Adiei minha partida o quanto pude, na esperança de ver um sorriso e ouvir um sim. Prendia o choro na garganta e atendia o telefone sorrindo. É verdade: entre bonés, tênis e computadores de marca, eu era a mais ignorante. E talvez por isso eu não servisse para seguir os passos que me mostravam, por não querer regredir meus valores humanóides. Há mais vida lá fora do que armas e glória, eu vi. E esse dom que só os homens têm, e essa letra que só os homens têm, e essa armadura que só os homens têm, e esse caminho que só os homens conhecem... não fizeram parte de mim.

E eu agradeço por isso: pela única oportunidade que eu perdi, de me perder.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Dê a descarga.



Um sentimento antigo esquecido no canto mais sombrio da memória. Eu só lembro quando durmo. Cada homem que deita ao meu lado traz um milésimo da memória velha e ao fechar os olhos o cérebro faz sua parte de resgate. Sonho com sorrisos letivos.
Eles levantam da cama e vão ao banheiro e eu penso que é você voltando a qualquer momento. Porque você era desses que vão mas sempre voltam, exatamente como quem só vai ao banheiro por necessidade, faz uma merda qualquer e volta aliviado com a alma mais leve e o coração com mais espaço para mim. Só foi logo ali pegar fôlego para me suportar um pouco mais. Nunca mais voltou.
Esqueceu o caminho de casa e encontrou deus na esquina do bordel. Esqueceu da paixão que agora jaz seca entre os livros de literatura de cordel. Cordas e algemas ao redor de si e uma venda benta nos olhos para secar as lágrimas. Por onde passo deixo pedaços e rastros de ti - pistas de saudade. Você nunca mais vai voltar?

Doa-me o que doer.


Eu lembro dos dias de tédio em sala, quando eu - por exclusiva covardia - fingia estar com náuseas, dores estomacais ou enxaquecas e o professor respondia convencido: "Estás mesmo muito pálida! Vá tomar um ar!" e eu fugia encabulada e surpresa com meu dom camaleônico... Momentos depois eu começava a ter náuseas e dores - não aquelas idealizadas, mas as que dóem. Eu lembro de como eu preferia ser doente a ficar na sala aprendendo coisas que eu nunca usei. Minha longa história sobre doenças convenientes.

{10/05/10}

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sozinhos.


Olha pra mim: descascando cebolas sem parar, com cheiro de carne podre na corrente sangüínea. O ralo entupiu de novo. Olha o que me faz chorar... Sozinha num pseudo-lar, com a boca cheia de doce azedo. Alimentando minha tensão pré-casual. Dando pistas e mais pistas de quem eu nem sabia que era. E é assim que você gosta de mim: sozinhos.

Adaptação.



Já lavei os lençois e as fronhas, já troquei o lixo do quarto. Já limpei os vidros e janelas e te desenhei na parede. Dorme comigo só mais hoje e vai ficando aqui sem ver os dias passarem. Deixa que eu tiro sua roupa, te jogo na cama e beijo teu corpo com suor encharcado. Viro o colchão, troco de lado, ilumino seus olhos. Te falo de deus, de mãe e de mim; um pouco de tudo que não te faz falta, nem faz sentido. Subo todas as ruas e choro com a chuva. Seguro suas mãos e te acendo cigarros. Te dou mais um trago. Dou passos largos, te largo no ponto e te dou mais um beijo. Não digo "eu te amo", mas nós já sabemos. Por que tudo acaba sem nem começar? Você na parede e eu em qualquer lugar. Seu presente embrulhado com cordas e lanças. Já posso até me matar.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O pior dia para falar de amor.


Abri a porta da minha casa abandonada e percebi que o cheiro de portas fechadas não me incomoda mais. Não me incomoda o convívio com as formigas e traças, nestes móveis velhos de quem já morreu. Não me incomoda as roupas sujas embaixo da cama e as limpas amassadas sobre ela. Não me incomoda o ralo entupido de células mortas, mas nem as vivas incomodariam. A geladeira que não gela mais, não faz diferença. E a árvore de natal que ninguém viu... nem isso me incomoda muito.
É só aquela roupa suada de ontem à noite, no chão da minha sala, amassada pelo amasso e pelo abraço seu. É só ela, singular, que me enche o peito de ar e me molha os olhos de nada. Porque na noite passada foi você quem abriu meus olhos e me mostrou quem eu sou. Foi você quem fechou meus olhos e me fez querer te ter inteiro. E eu, eu só fui aquela que te fez dormir de costas. Porque eu não sei amar o tempo todo. Eu não sei, mas se soubesse, te amaria.
Me incomoda saber que você já sabe.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

No Promises

A primeira música que eu compus. Letra e melodia.
Como eu disse, é simples mas é minha.
E veio de dentro, como tudo que tem aqui.
Espero que gostem... mesmo!


NO PROMISES

Cigarettes smoked by half.
Do you remember? You said you'd stop.
You lie on your bed and you want to have dreams
But you forgot how to fall asleep.

And your life looks like a story
About all the promises that you failed.
And the loves you destroyed,
They still run in your veins.

To remind you ...

It's easy to cry when you feel
That your love will leave you someday.
But you smile even when
You're breaking a heart without shame.

And you look around and see no glory
In those things you've already won.
And you talk to Jesus
But he doesn't want to hear you anymore

Not anymore...

*****

SEM PROMESSAS

Cigarros fumados pela metade.
Você se lembra? Você disse que ia parar.
Você deita na sua cama e quer ter sonhos
Mas você se esqueceu como dormir.

E sua vida parece como uma história
Sobre todas as promessas que você não cumpriu.
E os amores que você destruiu,
Eles ainda correm nas suas veias.

Para te lembrar...

É fácil chorar quando você sente que
Seu amor vai te abandonar algum dia.
Mas você sorri mesmo quando está
Quebrando um coração, sem se envergonhar.

E você olha em volta e não vê nenhuma glória
Nas coisas que você já conquistou.
E você fala com Jesus
Mas ele não quer mais te ouvir.

Não mais... Nunca mais...

domingo, 24 de outubro de 2010

Sonhos de cimento e ar.


Fazendo leitura dinâmica dos meus pensamentos. Em câmera lenta.
Sentindo as batidas do meu fiel ressoando em cada pedaço de pele e entupindo a garganta.
Tem uma escola de samba a ensaiar aqui dentro que anda devagar e pisa nos meus sonhos, fazendo-os sentir a linda dor da existência. Porque a dor da vida é das mais belas.
E, graças a Mim, tudo que eu quero é ser passarela.
Pise fundo e com vontade.
- escrito na rodoviária que é a passarela de Sorocaba.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Afogando as mágoas que eu não tenho.

Minha vida está a bordo de um barco em águas calmas. Não tem ressaca, nem tempestade, nem tesouros escondidos. Não tem vento no céu que mude a minha direção. Só o sol queimando meu rosto e me dando energia para pensar que vale a pena. E tem muita certeza nisso; a calmaria ideal, uma vida toda desembrulhada do presente. O lugar perfeito para morrer. Mas não pra mim, que nem comecei a viver!

Onde estão as ondas teimosas para molhar minhas roupas, meus cabelos e arrepiar os pelos do corpo? Pra onde vão essas aves que cantam sotaques de outros ninhos? E as histórias de vilão e mocinho pra iludir meu coração? Eu tenho saudade da falta de resposta pra questão... e tenho saudade da solidão. Cadê os piratas que vão me salvar? Quem vai encontrar o tesouro perdido no meu peito? É do tamanho do mundo essa riqueza que não cabe mais aqui dentro. É grande demais para ter só um fim. O tesouro que eu tenho não quer ser polido, quer cicatrizes de sangue... Sangue A, Sangue B, Sangue Ouro Negativo. E experimentar o curativo que vier. E se vier. Porque eu prefiro morrer sangrando a viver de espera.

Ah, essas nuvens... Contam-me histórias enevoadas de amores platônicos e traições inocentes, e viram chuva que molha meus olhos e dá brilho. Vou pular nesse mar e mergulhar no reflexo da vida que eu quero levar. E me afundar. Talvez me afogar. Sorrindo por ver o barco-prisão sozinho lá em cima a se perguntar: “Onde foi que eu errei?”. E as bolhinhas de H2O encharcando os meus vãos vão sussurrar a resposta: “Na perfeição, meu Amor”.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Uma dose de cabeça pra baixo (que é pra você dormir bem).

Outro dia mesmo eu te percebi pela primeira vez parado na passagem principal da minha rotina e sua barba me tomou horas de questionamento sobre qual cheiro deveria ter.

Você mal me viu sorrir e já sabia: “She’s going to smile to make you frown, what a clown” *. E passamos a nos seguir pelos corredores, sem querer.

Aos poucos fui decifrando seus olhos atrás das lentes, seus dedos atrás dos livros e seus dentes atrás do cheiro que só sonhando pra saber. Já éramos íntimos quando ouvi o timbre dela, sua Voz, que só podia vir acompanhada do som do violão que você fazia falar.

Então eu pedi um copo e engoli toda minha timidez; pedi um cigarro e traguei toda minha ansiedade – eu que nem fumo, só porque estava com você. Nesse dia decorei as variações Dela e podia ouvi-la a metros de distância com o coração e olhos acelerados. Meu coração fazendo escândalo dentro de mim outra vez. Não demorou muito e você sentiu a vibração ali, minhas orelhas queimando, minhas palavras trocadas e meu idiota disfarce de mulher controlada. Cada detalhe como um fio de barba que você já conhecia há tempos. E por saber da tempestade que acontecia em mim, abriu guarda-chuvas e capas e construiu um abrigo seguro num espaço vazio dentro de ti, para me proteger das enchentes e terremotos que eu mesma causaria. Um homem e tanto você se mostrou; e que por não crescer como os outros, manteve intacta a sensibilidade necessária para me fazer querer te abraçar todos os dias.

Mas os dias sem você só aumentavam e, por eu não poder te ter, você se livrou de mim. Se me perguntassem qual o cheiro da saudade eu já saberia responder: é o mesmo da barba que só sonhando pra saber. Tenho dó não de mim, mas dos copos plásticos que desfio entre meus dedos que, sem utilidade, nem têm sede pra matar. Mas se isso tiver que ser tudo, que continue assim, pois hoje eu sou ao menos a Branquinha de luz própria, quem te conduz entre tantas outras ‘negas’ que só passam sem parar.

* Femme Fatale - The Velvet Underground

13/09/10 – Samantha P. S.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

1 x 1

Ele dormiu do lado direito da cama esta noite, bem do meu lado. Nem a cama de casal, nem o apartamento, nada ali nos pertencia. Só o sono. É que o colchão na sala destinado a ele era quase só chão e a noite implorava conforto. Éramos só nós dois, afinal, para quê fingir? Quando não tem ninguém para te julgar, você perde o medo de arriscar e então “fica comigo esta noite?”. Eu vi felicidade e gratidão transbordando em seu corpo, que enrijeceu tímido.

Dormiu cedo e de costas para mim - o Sr. Respeito - e eu invejei sua respiração profunda de criança. Observei cada segundo o ar entrando e saindo do peito. Tentei acompanhá-lo, mas dormi antes que conseguisse e me perdesse em suspiros.

Acordou cedo e ficou me olhando dormir, mas eu acordei primeiro. Chegou perto da minha boca, eu senti. Abri os olhos no mesmo momento que ele fechou os dele. Não se deve confiar em quem finge dormir – pensei. E voltei a fingir. Estava a dois centímetros do meu rosto e queria me beijar, então eu brinquei com isso sem abrir os olhos. Nariz com nariz, nariz com boca, nariz com olho fechado e a respiração orquestrada dentro do nosso peito. Peito com peito, peito com ombro, peito com mão. Mão com costas, mão com cabelo, mão com cintura e, finalmente, mão com tesão. Boca com boca. Olhos abertos, janelas abertas e... pernas abertas.

A manhã nasce linda para todos os amantes. Tem cheiro de vida uma manhã assim e talvez só por isso eu acorde sempre pronta para dizer “bem-vindo” com o corpo. Eu agi como se soubesse o que fazia o tempo todo e nós dois acreditamos. Tão convincente que passamos o dia andando de mãos dadas como se tivéssemos descoberto um antigo amor oculto. Mas não se deve confiar em quem tem o coração partido. Eu o amei um dia, mas ele só me amou a partir deste. Antes fosse antes!

13/09/10 - Samantha P. S.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Vida, me perdoa?



Hoje não deu. Fui obrigada a segurar meu coração ao passar na sua frente. Desacostumado com meus mimos e erros, ele estava definitivamente decidido a me abandonar e te pedir abrigo por favor. Não dá! Dessa vez amordacei esse idiota que só quer se aventurar. Ele quer rodízio de amor, quer ser gula e luxúria ao mesmo tempo, quer ferver o tempo todo e sofrer queimaduras de graus ridículos para aumentar a coleção de cicatrizes. Ele não quer ninguém para carregá-lo na prisão do peito. Mas eu, eu não.

Eu só preciso de um e sei quem deve ser. Quero aventurar-me na rotina dos mesmos olhos que – eu sei – nunca decifrarei. Quero preencher o vazio úmido e morno que existe permanente em mim com o molde perfeito que eu já sei de cor. Quero abrigar aqui dentro extensões de meus genes e me ver nos gestos primários dos meus filhos. Quero a satisfação mundana de programar o fim, sem correr riscos. Quero sim e repito até me convencer.

E essa vergonha que meu mal-agradecido coração me faz passar, é dor que só eu sinto. Me aproximo da morte a cada censura, mas que minha vida me perdoe... é tempo de racionalizar a covardia e insistir – não no erro, mas na esperança.

02/09/10 - Samantha P. S.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

"Fahrenheit"


Quando as pessoas me diziam que o perfume era como uma identidade, uma impressão sensitiva presencial, eu não costumava acreditar. Tantas pessoas eu já abracei e sequestrei para dentro de mim pelas narinas... Com exceção de duas ou três de intimidade familiar incontestável, nunca me lembrei de alguém por consequência do respirar. Até hoje.

Alguém usou o seu perfume; alguém que eu admiro muito. Parou do meu lado indiscretamente e o vento fez sua parte de enfiar aquele seu cheiro pra dentro de mim, na direção do meu cérebro. Parei de respirar. Não podia ser ninguém além de você. O primeiro.

A princípio não entendi por que ele fez isso. Por que roubou de ti a única coisa que eu ainda lembrava sem querer ser tua. Mas o acaso tem suas reservas incontestáveis e absolutas. As pessoas utilizam-se de artifícios extravagantes para nos atingir – e você usou aquele pobre homem de caráter. Era você impregnado naquele pescoço e naquela roupa, jogando na minha cara todos os momentos que eu juro já tinha esquecido.

Pude ouvir sua voz se gabando que aquele era importado e custava mais caro que os que eu usava, mas não tão caro, pois você nem se importava em desperdiçá-los em meus pertences – que era pra eu não sentir sua falta. E já estava na metade daquele vidrinho crepuscular imponente, mas tudo bem, pois você já ia comprar outro com o troco da tequila. Não tinha cama, nem cabelo, nem sonhos e passava rodo no banheiro depois do banho; mas dinheiro para o perfume nunca lhe faltou. O cheiro ácido-amadeirado do seu perfume que impregnava os quatro cantos do seu quarto vazio. Foi como uma tempestade o seu cheiro: no início me agradou, mas sua persistência intermitente me sufocava mais a cada dia e eu não podia sair de casa para lembrar do ar puro, pois você estaria lá com seu cheiro orgulhoso, derrubando-o como orvalho do amor em tudo que me cercava. Como se tornou irritante a sua presença inconfundível! Você chegava sempre sorrindo com o cheiro antecipado sabendo que eu amava tudo isso, enquanto eu sorria com os lábios nauseados e os olhos lacrimejando de coragem e covardia – corajosa para te encarar e covarde para te deixar. Eu devia ter inventado um fim para esse desespero. Que poder o teu perfume tinha de me afastar e você! E... que desculpa inovadora eu encontrei para me livrar da sua sombra inodora!

Foram dias difíceis aqueles ao seu lado. Nada digno de ser recordado. Nada além do cheiro ácido do passado, que quando misturado com seu suor me dava arrepios que serviam como choques para acordar a minha vida e me dizer que meu tempo não podia ser perdido.

E por você nunca saber disso, hoje não tem mais cheiro. Até agora.


18/08/10 - Samantha P. S.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Antes a rosa, hoje há saudade.


Ele deixou a janela do quarto do prédio aberta pra deixar a chuva entrar. Depois fez amor na cama molhada e dormiu dentro dela. Quem diria que um homem como ele faria isso com ela. “Eu preciso saber, você está acordado?”. Ele tinha cansado das mulheres frígidas que o amavam por interesse, foi assim que ela descobriu por que ele a amava. Ele lhe disse eu te amo algumas vezes num dia, mas o coração dela não quis responder nenhuma e então ele dormiu novamente - sem sonhos - e acordou no dia seguinte, sem amar mais. Ele tinha um lugar para voltar, graças a ele. Antes a rosa, hoje há saudade.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Simpatia reprimida.





Eu nunca prestei atenção nele, mas fui para cumprimentá-lo com um beijo no rosto, como minha nada-nobre educação recomendava.
Ele me surpreendeu com rápida rejeição sorridente [me lembrou o momento final da Odisséia do Amor Platônico, só que no lugar do sorriso eram lágrimas]. Disse que não podia me beijar porque nossa amizade não era sincera. Eu, de idiota, insisti na merda do respeito.
"Mas eu nunca compartilhei contigo meus problemas!". "E nem eu quero saber deles!" - respondi de imediato, agora sorrindo o sorriso sincero de quem finalmente diz o que quer.
Então quer dizer que agora existem regras para o (con)tato? "Conte-me um segredo e terás passagem livre até meu rosto." Pro inferno com tudo isso!
A verdade é que eu nunca me senti tão bem na quase-companhia de um estranho complicado. Fomos inevitavelmente sinceros um com o outro.
Não guardo rancor, guardo lições.



terça-feira, 4 de maio de 2010

Sobre enganos propositais e arrependimentos tardios.

De repente, na manhã mais solitária do mês - depois de um sonho ou uma noite mal dormida - ele acordou preparado para aceitar sua própria verdade crua.

Talvez tenha sentido a noite inteira vazia, ou o mês inteiro infeliz. Talvez tenha sentido saudade de alguém que nunca quis. Talvez um dia numa sala de aula lotada ele tenha procurado - por instinto - apenas um olhar, só um olhar mais intenso que estivesse teimosamente vivo por sua culpa, em vão. Talvez os shows estivessem mais calmos e menos iluminados, ou a plateia fosse só ventiladores... mas ele começou a sentir frio e mesmo a garrafa vazia, nem esta conseguia dar-lhe o calor necessário - que era bem dentro do peito. Talvez, até mesmo seu pai - aquele monstro que roubou-lhe a liberdade de criança - tenha mostrado-lhe através de vômitos e oratórias o engano, o grande engano da covardia de não assumir nem encarar seu grande Amor. Ele, que sempre negou seu sobrenome, acordou na manhã mais solitária do ano e ao invés de escovar os dentes grandes e brancos, olhou-se no espelho e viu os mesmos olhos tristes de quem fugiu da felicidade, velhos de quem não vive e cansados de quem finge rir suas lágrimas; os mesmos olhos de seu quem-dera-amado pai.

Talvez por tudo isso, por cada uma de todas as minhas hipóteses, ele tenha sentido a necessidade de ouvir a única voz que o reconhecia como homem e que, no entanto, ele evitou por tanto tempo. Por isso - e não por outro engano proposital - ele me acordou num pulo e com o coração finalmente batendo com vontade, assumiu para si mesmo algo que eu já sabia há tempos: "Desculpa, foi engano". "O maior dessa vida", eu responderia em lentos batimentos cardíacos, que provavelmente nunca servirão de consolo.

Imagem: ¿Quién es Quién? - El NAF