quarta-feira, 14 de julho de 2010

Antes a rosa, hoje há saudade.


Ele deixou a janela do quarto do prédio aberta pra deixar a chuva entrar. Depois fez amor na cama molhada e dormiu dentro dela. Quem diria que um homem como ele faria isso com ela. “Eu preciso saber, você está acordado?”. Ele tinha cansado das mulheres frígidas que o amavam por interesse, foi assim que ela descobriu por que ele a amava. Ele lhe disse eu te amo algumas vezes num dia, mas o coração dela não quis responder nenhuma e então ele dormiu novamente - sem sonhos - e acordou no dia seguinte, sem amar mais. Ele tinha um lugar para voltar, graças a ele. Antes a rosa, hoje há saudade.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Simpatia reprimida.





Eu nunca prestei atenção nele, mas fui para cumprimentá-lo com um beijo no rosto, como minha nada-nobre educação recomendava.
Ele me surpreendeu com rápida rejeição sorridente [me lembrou o momento final da Odisséia do Amor Platônico, só que no lugar do sorriso eram lágrimas]. Disse que não podia me beijar porque nossa amizade não era sincera. Eu, de idiota, insisti na merda do respeito.
"Mas eu nunca compartilhei contigo meus problemas!". "E nem eu quero saber deles!" - respondi de imediato, agora sorrindo o sorriso sincero de quem finalmente diz o que quer.
Então quer dizer que agora existem regras para o (con)tato? "Conte-me um segredo e terás passagem livre até meu rosto." Pro inferno com tudo isso!
A verdade é que eu nunca me senti tão bem na quase-companhia de um estranho complicado. Fomos inevitavelmente sinceros um com o outro.
Não guardo rancor, guardo lições.



terça-feira, 4 de maio de 2010

Sobre enganos propositais e arrependimentos tardios.

De repente, na manhã mais solitária do mês - depois de um sonho ou uma noite mal dormida - ele acordou preparado para aceitar sua própria verdade crua.

Talvez tenha sentido a noite inteira vazia, ou o mês inteiro infeliz. Talvez tenha sentido saudade de alguém que nunca quis. Talvez um dia numa sala de aula lotada ele tenha procurado - por instinto - apenas um olhar, só um olhar mais intenso que estivesse teimosamente vivo por sua culpa, em vão. Talvez os shows estivessem mais calmos e menos iluminados, ou a plateia fosse só ventiladores... mas ele começou a sentir frio e mesmo a garrafa vazia, nem esta conseguia dar-lhe o calor necessário - que era bem dentro do peito. Talvez, até mesmo seu pai - aquele monstro que roubou-lhe a liberdade de criança - tenha mostrado-lhe através de vômitos e oratórias o engano, o grande engano da covardia de não assumir nem encarar seu grande Amor. Ele, que sempre negou seu sobrenome, acordou na manhã mais solitária do ano e ao invés de escovar os dentes grandes e brancos, olhou-se no espelho e viu os mesmos olhos tristes de quem fugiu da felicidade, velhos de quem não vive e cansados de quem finge rir suas lágrimas; os mesmos olhos de seu quem-dera-amado pai.

Talvez por tudo isso, por cada uma de todas as minhas hipóteses, ele tenha sentido a necessidade de ouvir a única voz que o reconhecia como homem e que, no entanto, ele evitou por tanto tempo. Por isso - e não por outro engano proposital - ele me acordou num pulo e com o coração finalmente batendo com vontade, assumiu para si mesmo algo que eu já sabia há tempos: "Desculpa, foi engano". "O maior dessa vida", eu responderia em lentos batimentos cardíacos, que provavelmente nunca servirão de consolo.

Imagem: ¿Quién es Quién? - El NAF

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Eu: mártir de mim mesma


Tiradentes Esquartejado (Pedro Américo, 1893)

A vitrola começa a chiar e logo em seguida começa uma música que eu não gosto. Não vou mudar. Só liguei para distrair a cabeça e parar de sentir as pontadas no coração que refletem no cisto do filho que eu não vou ter.

Eu penso que queria ter sorte em tantas coisas, mas não é possível. O Velho Barreiro, barbudo de sabedoria, me diz que eu estou certa e acrescenta: Tiradentes também estava.

Realmente, minha cabeça parece decapitada e meu corpo, esquartejado. Deve ser o preço da certeza, afinal. Um dia posso precisar de um feriado para mim - e quem sabe eu não mereça - para fingir acalmar a cabeça com uma música antiga compactada num disco, rodando no ritmo frenético dos meus medos infantis que eu certamente não superei.

Eu vou mudar.


terça-feira, 20 de abril de 2010

Sobre corações e ritmos secretos



Desliguei o celular sabendo que tinha algo a mais para perguntar. Pensei em retornar, mas não... se a resposta fosse "sim" eu não saberia o que fazer. Tem horas que eu prefiro a incerteza que a verdade. A mentira também seria uma opção, mas se um dia eu a descobrisse, jamais o perdoaria.
"Quem é vivo sempre aparece". Frase de impacto que ainda não surtiu efeito; para mim. Ele teve a (des)ventura hoje e me contou, com a voz inalterada.
Talvez eu não alterasse a minha se fosse comigo e talvez eu não contasse para ninguém que eu, orgulhosamente, não senti meu coração mudar de ritmo.

_ Mas e você, SENTIU?



[silêncio]

sábado, 27 de março de 2010

Sobre o tempo, esse mistério.


Eu me perco olhando no relógio. Eu olho no relógio para me perder. Um vício.
11:11. Algum dia pensaram em mim. 11:12. Algum dia pensarão em mim.


Passaram-se sete anos enquanto eu procurava o pedaço de mim que eu já tive.
Passou-se um mês desde que o reencontrei. Uma semana sem te ter ou ver.
Dez horas marcadas no ponteiro para te ter! Contagem regressiva. Progresso!


Dez anos sem contato nenhum. Contradição: "Longe dos olhos, longe do coração".
Cinquenta minutos de aula que ficaram gravados para sempre. Inconsciente...
Uma carta de vinte minutos para repor os dez anos. Esperança passeia em mim.

Uma vida inteira de espera atrasada.
Tudo está cronometrado.
Quem comanda sou eu.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O que se esvai entre os dedos




Escrito por Eliéser Baco (www.elieserbaco.blogspot.com),
que sutilmente me incluiu na história.
Obrigada!






Mr. Chivalry encosta-se na cerca ampla de uma estalagem para abrir o guardachuva, a garoa que parecia firme e ritmada transforma-se de vez em tempestade. É tarde da noite. Michela, Srta Portman, Samantha, acompanhada de seus pares, esperam-no. Dimitri acende o cigarro de uma delas e coloca o capuz de couro sob os desalinhados cabelos. Caminham.


Mr Chivalry
_ Seres que não sou. Momentos que viveria se o breu se revirasse ao... (um inconsistente tremor na vinha do outro lado da estrada o faz subtamente parar). Solos que pisaria acompanhado se a mágica oferecesse. Mágica de possuir, como num ato... (da vinha nada parece mais atraver, mas todos a observam)
ato de deixar de ser, acelerar, acelerar, e bruscamente levitar, enxergado que fôra!

Srta Portman
_ Os modos enfraquecem o que conhecíamos da mistura dos povos, da andança das gentes. Tudo se parte em situações que empobrecem o teor de mim, o teor de Michela, de Samantha Bathory. O breve riso, maléfico riso dos outros. Austera escolha Mr. Chivalry o de tentar ser, difícil nestes tempos de costuras e remendos no falar, nem ouvir mais podem ou sabem.

Mr. Chivalry
_ Trocarei de lugar com o retrato, bela moldura... acertado que fôra. Labirinto, teor d'arte de relevo em pintura?

Dimitri
_ Do que falam? Remendos na fala? Trocar de lugar com a pintura? Qual pintura? Não acompanham o resto da humanidade? As guerras fazem fortuna, as doenças continentais da mesma forma. A arte é ser famoso, é entreter com pão e circo os que votarão nos mesmos coronéis de sempre. Para que refletir se podem ficar grudados nas vidas alheias, sejam folhetins ou não. Do mais que tratam nas tavernas acompanhados do vinho e do whisky, são asneiras, penas que voam na esteira do tempo, perdem demais refletindo e suando uns sobre os outros, precisam acompanhar a marcha desta sociedade. O espetáculo está lá para podermos admirar. Para que o arrebol? Tenhamos pois a ficção de acharmos estarmos certos ao nos deixarmos levar pela mídia. Leituras? Leiam as bulas, e prestem atenção nas letras miúdas velhacos.

Param de caminhar.

Michela
_ Estás doudo Dimitri? Deram-lhe absinto?

Dimitri
_ Quase a convenci não? Preciso melhorar meus improvisos teatrais.

Riem e o expulsam para a chuva.

Samantha Bathory
_ Na Taverna. Aquele momento maior. Se debaixo do som daquela voz do poeta, pelo momento em que respirou para continuar a declamar, aparecesse... seria ritmo, força do cosmo em poeiras, sorriso do sol que se esvai entre os dedos.


Todos admiram a quieta Samantha. E ficam a memorar o que para cada um se esvai entre os dedos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Depoimento Secreto



Eu sinto o peso das suas pálidas pálpebras paradas no espaço. De modo estranho, sinto seus lábios entreabertos que denunciam a falta de incentivo e apoio. Apóio meus pensamentos nas extremidades dos dedos e sinto o peso do meu sangue pulsando na superfície única da pele exposta. E suas costas, constante, encosta no mesmo apoio que o meu, que logo desliza e disfarça sua função.
E é sempre por acaso que tudo isso só acontece em mim quando me força a enfrentar suas eternas costas – que de tão presente tornou-se rotina, roubando o lugar que seria seu não fosse a frieza das tímidas palavras sem autoria.
Fujo do anonimato pra tentar fazer diferença; escrevo sobre tudo que me inspira e não tenho medo das conseqüências; afinal, são só palavras impessoais numa folha reciclável... de atitude tão covarde!
Antes fosse como você, me anularia no anonimato mas falaria mais de mim.
Você sabe quem você é, tem todo o direito de agir como quiser.
Eu gostei de te ler.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Invejando Idiotas

*fotografada por mim, momentos antes de escrever isso

Esse lugar é tão lindo que eu tenho vontade de cagar nele. Tenho vontade de mergulhar no lago e mijar dentro, marcar território num lugar que não é meu e nem vai ser.
A situação me deixou tão tensa ao ponto de me cegar perante a beleza da natureza. Os pássaros e pombas comuns me inspiram inveja ao invés de admiração. Eles cantam e vivem aqui tão alheios à minha tensão que me dá ódio da irracionalidade dos animais. Como no dia em que eu, dramática, chorava em busca da compreensão do meu gato que dormia e às vezes me olhava com os olhos pela metade a me perguntar se eu não o deixaria dormir em paz. Eu não escolhi não ser como eles, qual o remédio pra mim?
Começo a entender porque alguns humanos sentem prazer ao aprisioná-los. É a vida racional tornando-os perfeitos sádicos. É claro que trocaríamos toda nossa responsabilidade de dominar a razão por dias de cantos e bater de asas! Não se tem liberdade quando seus pés estão no chão. Não se tem liberdade quando milhões de semelhantes estão prontos para te julgar incapaz. Entre as aves não há preconceitos. Todos sabem voar. Mas pra mim... voar depende dos outros. E os outros nunca querem erguer o pescoço gordo para te encontrar.
Hoje eu posso ter desculpas por bancar a distorcedora de valores. Eu quis me esquecer de tudo - sem querer. Foi uma tentativa - falida - de me assemelhar às aves. Aquelas idiotas. Não existe dia certo para sonhar, exceto esse.
Esse lugar é tão lindo que eu gostaria de ser enterrada nele; sob o coral de pássaros e pombas comuns que cagariam pra minha morte e reproduziriam-se no lugar dos meus filhos e netos.
Pode ser que hoje algum deles morra por minha culpa... e isso eu nunca vou saber.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

"Testando o gravador pra ver se ele grava a dor"


Sangrava e os beiços precisavam de saliva. Qual é a do ser que não percebe seus instintos? Morre bonito. O tiro vai ao alvo.
Depois da morte há vida. As patas tornam-se pés, numa metamorfose humana meio morta. Não fez diferença, pois o amor era o mesmo. Cachorro, mula, homem... não era o corpo que “me” atraía, era ele mesmo, dentro do próprio ser invisível. Qualquer forma que tivesse, ainda assim faria parte de mim. Meu cachorro, minha mula, meu preá que não me quer mais. Ainda bem que não depende dele. É por mim que ele vive, sem querer... Não posso salvá-lo, sou só eu que estou aqui, pois acabo de enfiar a faca nas costas dela. O sangue não presta nem pra doação. Não salva vidas nem tem gosto pros vampiros. Pobre morta incolor... Como a água passa, lava e vira lágrima, pronta pra virar porra. Dentro de mim é claro!
Não viaja... a porra está por todo lado. Na boca daquela, nas pernas da santa. Pura mentira. Sabe? Daquelas transas com gosto de vingança, com o pensamento em outra que pensa estar morta... que queria estar morta e deitada no seu peito, talvez no seu pênis, sem sacanagem.
Não dá mais pra aprender com você, pois pediu pra morrer nos meus braços – ou nos meus peitos – numa nuvem de incêndio do meu coração. Grande bosta, eu deixei que fizesse parte da minha morte e, sem interesse, não recebi nada em troca. Não recebi nada em troca.


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ADVERTÊNCIA:


Escrito dia 09/10/09, durante uma aula qualquer de Literatura, sob o efeito de algumas garrafas de cerveja e amor malrresolvido. Se não encontrar sentido nas palavras, considere-me exemplo e não escreva bêbado(a).

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Créditos finais: imagem e título encontrados por Carl, Dead Carl, que jaz no meu coração.